- Quero que saiba uma coisa, antes de continuar.
Rachael contemplava a sombra
tênue do corpo pálido que jazia ao seu lado. A fumaça que saia do cigarro de
sua mão, formava ondas circulares que junto com o corpo lhe provocavam a
sensação de ter ganhado imunidade contra a gravidade. Um estrondo na porta o fez
pular e erguer-se em menos de dois segundos. Foi quando sentiu um ardor no pé;
o cigarro tinha lhe queimado. Raivoso e com medo de acordar sua
companheira, abriu a porta devagar. Um homem corpulento com traços duros e
bigode espesso entrou rapidamente e sem dizer uma palavra sequer, contemplou a
imagem da moça. Após alguns segundos, Rachael percebeu que esse homem era o pai
da moça que estava deitada. Sem pensar, tentou dizer alguma coisa, mas o homem
sussurrou:
- Vamos para fora. - o tom
calmo desconcertou a Rachael - Não se esqueça de colocar alguma roupa. - Nesse
momento Ricalski percebeu que estava nu.
Amedrontado, mas sem opções, Ricalski saiu do quarto após vestir-se.
Ambos desceram até a recepção e sentaram num sofá marrom que parecia ter sido
colocado ali desde a fundação do motel.
- Permita-me que lhe explique! - foi a única frase que saiu da garganta
seca de Rachael.
- Silêncio! - a voz firme e calma mais uma vez desconcertou a Ricalski.
- Quero que me escute com muita atenção. - O senhor pegou um lenço e limpou o
nariz com tanta delicadeza que parecia que seus dedos tinham nascido para isso.
- Eu sei que você é um infeliz que veio para cidade em busca de melhorar sua
vida. Mas, quero que saiba que aqui as coisas são distintas! Aqui as pessoas
têm que assumir compromissos. Minha filha tem pai! Portanto, ela não está e
nunca estará sozinha! - Enquanto o eco da última frase ainda retumbava, o
senhor pegou um cantil e bebeu um pequeno gole. - Qual é sua pretensão com
minha filha?
- Senhor! - Ricalski estava
pensando como é que o pai de Sirah sabia que eles estavam nesse motel. -
Eu estou saindo com ela e pretendo namorá-la.
O rosto avermelhado do pai e
as veias saltitando fizeram com que Rachael pense que a resposta não foi a que
o senhor esperava.
- Quero que saiba uma coisa,
antes de continuar. Eu não vim aqui para te afastar dela, eu só quero que você
entre na vida dela sabendo a verdade. - Os olhos de Rachael se abriram e sua
cara de dúvida fez com o que o pai soubesse como ia terminar essa história. -
Minha filha é soropositiva!
O sangue de Rachael gelou imediatamente, sentiu como se a gravidade
agora agisse no seu corpo multiplicada por dez vezes. Imagens passaram na sua
mente, as gargalhadas, os cinemas às quintas, os motéis que visitaram e
sobretudo, as vezes que transaram sem camisinha. Rachael sentiu-se como
uma árvore que perdeu todos os galhos, pois não havia mais mentiras. Finamente
entendia a continua insistência de Sirah para que fossem juntos ao hospital. -
Não! Isso é mentira! - Lágrimas de ódio e medo escorriam pela face de Ricalski.
O pai da moça ficou em pé, bebeu um gole e olhou para Rachael. - Sabia
que você não era o cara indicado para ela. Agora que você sabe a verdade, o que
pretende fazer?
Com as pernas bambas, Ricalski correu sem rumo. O sol lhe parecia opaco
e a palavra soropositiva era repetida na sua mente uma e outra vez. Quando finalmente
ficou sem fôlego, caiu no chão e vomitou. Levantando o rosto, desejou ter algo
para beber. Tentou respirar e se acalmar para pensar, mas o sentimento de ter
sido enganado era mais forte. Na cabeça agora lhe vinha o pensamento de como
ela foi capaz de fazer isso. Socou a terra estarrecido pela raiva e quando viu
o sangue formar um rio, lembrou-se das palavras de Sirah antes de entrar no
motel. Preciso que você converse amanhã com o doutor Paulo Castilho.

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